Aprendendo como criar e como desencadear o processo criativo • Revista Abigraf #275 

26 de fevereiro de 2015

Renata Rubim, designer pioneira na divulgação do design de superfície no país, é formada pelo IADE em São Paulo, e estudou na Rhode Island School of Arts, em Providence, EUA. Atualmente dirige a empresa Renata Rubin Design & Cores, localizada em Porto Alegre e realiza workshops e palestras em todo o Brasil. <renata@renatarubim.com.br>

Artistas, escritores e designers costumam ter registros de ideias, notas e imagens para 
utilização em seus projetos. Há quem desenhe, outros fotografam e uns escrevem.
 Quais os processos de registro que mais ajudam no teu processo de trabalho?
— Prefiro os registros fotográficos. Aprendi nos EUA a trabalhar a partir de imagens e acho fantástico como esse método desencadeia o processo criativo! Hoje com as tecnologias disponíveis fica cada vez mais apetitoso trabalhar assim. Mas não tenho preconceito com ideias. Principalmente quando elas surgem espontâneamente, sem pedir licença. Tenho a impressão que elas são fruto tanto da experiência e conhecimento acumulado, como também do exercício constante em não me prender a conceitos estabelecidos.
A experiência passada geralmente induz a escolhas com 
algum grau de repetição e não ter conceitos fixos, 
uma certa liberdade. A escolha de um ou de outro 
caminho te influencia muito no processo de trabalho?
— Considero bastante importante que haja a percepção de que temos tendência a repetições nas nossas escolhas, sejam elas no trabalho ou no cotidiano, na criação ou no desenvolvimento, para driblarmos esses hábitos.
Screen shot 2015-02-26 at 11.09.11 AME achas que as respostas desse processo de trabalho definem tua produção?
—Não tenho o distanciamento suficiente da minha produção para perceber se tenho uma identidade (ou “estilo”), mas gostaria muito de não ser facilmente identificada. Acho que o designer não precisa ter “cara” ou “estilo”. Ele tem de resolver problemas e situações. Entretanto, como não temos como alterar nossa “caligrafia”, é interessante mantermos a capacidade de apresentarmos soluções que causem certa surpresa. Aquilo que hoje chamam de inovação…
E, normalmente, quais são as principais fases de teu processo de trabalho?
—Caso o projeto encomendado tenha um briefing normalmente começo trabalhar algumas ideias, antes da pesquisa de referências, que mesmo assim é feita. Seguem-se as fases de criação, experimentação, alterações, tentativas. Sem tirar o olho no usuário daquele projeto. No caso de projeto para oferecer ao mercado o processo é diferente: primeiro a percepção de uma oportunidade e que nem sempre é bem sucedido. Em seguida, como toda ação empreendedora envolve diversos aspectos e riscos , como todas iniciativas que buscam sucesso sem investimentos prévios… É quase um jogo de xadrez porque além de design tem de haver estratégia, sorte e muito, muito empenho.
No teu livro Desenhando a superfície (Rosari, 2005) você elabora um pensamento sobre 
a intuição e a racionalização, quando descreves tua experiência como aluna que 
desenhava no lugar da aluna clássica que devia escrever e que a partir de certo ponto 
“…fui desenhando menos e a criatividade foi sendo reprimida ao longo do período escolar… ”Algo parecido aconteceu com Zuzana Licko, a tipógrafa tcheca que trabalha na California, era canhota e foi obrigada a praticar caligrafia com a mão direita. Depois de adulta nunca mais desenhou e descobriu no computador sua ferramenta para criação. O quê restou dessa experiência, e principalmente dessa conscientização, para sua seu processo criativo?
—Continuo desenhando nas etapas iniciais talvez porque tenha nascido “analógica”. Consigo transitar bem pelo digital, mas pensar e estruturar desenhos, faço na mão.  O que eu perdi no período escolar foi saber “como criar” ou seja, desencadear o processo criativo e isso resgatei através de uma metodologia que aprendi a usar nos EUA que pode ser utilizada pelo desenho ou por softwares. Nos workshops que tenho dado percebo que a maioria dos alunos prefere retomar o papel e lápis quando trabalhamos esse método. Gosto de comparar aos treinos numa academia: a gente exercita os músculos para deixá-los fortes. Podemos fazer o mesmo com o olhar.
Confiar no olhar, recomenda o norte-americano Elliot Earls —”a mão e a retina devem se movimentar simbióticamente em passos seguros que nos levam a produzir o traço físico, real. É por meio desse processo que podemos aprender a confiar não na mente, mas na retina”. Como essa metodologia ajuda a passagem do traço real para o traço virtual?
A retina é constantemente influenciada pela mente e só é possível desfazer isso (um pouco) ao se aliar a prática da meditação aliada ao exercício criativo. Acho muito difícil explicar verbalmente mas consigo dar exemplos aos meus alunos quando aceitam fazer os exercícios em aula e refletir sobre os resultados. Claro que não estou afirmando que a pessoa se desfaz totalmente da mente racional. Talvez eu possa traduzir assim: cada um de nós conserva sua “caligrafia”, mesmo que escreva histórias com tonalidades e humores variados. Essa mesma expressão se mantém na passagem do real para o virtual.

Anúncio, anos 1940, Porto Alegre, RS

26 de fevereiro de 2015

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Porque livros impressos ainda são importantes —por Timothy Young • Parte 02

26 de fevereiro de 2015

4. Os livros são fiel à forma.

Os livros são feitos para serem vistos e lidos de maneiras específicas. Muitos livros antigos tinham seções que se destinavam a ser visto como duas páginas não-isoladas umas das outras, como muitas vezes acontece em interfaces na Web. A mesma observação pode ser feita sobre os rolos de  pergaminho; suas característica formais foram a chave para sua interpretação. Não podemos esquecer que a leitura pode ter uma função cerimonial.

5. Cada cópia de um livro é potencialmente único…
…pelo menos até meio da segunda revolução industrial. Alterações de textos aparecem muitas vezes em diferentes cópias de livros que foram produzidos para ser idênticos. Até o final do século XIX o sistema de impressão envolvia muitos processos manuais, que necessitavam de correcções pós-impressão. Esses tipos de alterações nos informam sobre a genealogia das obras impressas. Muitos projetos de digitalização de obras são necessariamente limitados à seleção da “melhor” cópia de um livro, que, uma vez digitalizada, parametriza todas as outras cópias.

6. Impressos são bens de consumo…
…de maneira passiva e ativa. Algumas classes de livros e objetos impressos são produzidos para existir e para fornecer informações em um curto período de tempo e, em seguida, serem descartados. Temos muita sorte, quando as cópias de tais itens efêmeros sobrevivem, pois eles nos fornecem dados que os sistemas de registro convencionais tem grande dificuldade de documentar. Esse é o caso de folhetos, brochuras, ingressos, cartazes, e outros artigos impressos em folhas soltas.

7. Um livro é um objeto fixo no tempo.
Um livro pode nos dizer sobre o seu estatuto na história. Se olharmos através das primeiras edições de Moby Dick ou de  Leaves of Grass (Folhas de relva), descobrimos que eles fornecem informações não só sobre quando foram criados, mas também sobre em que mundo foram criadas, por meio de anúncios, acabamentos, qualidade do seu papel, e de suas marcas d’água. Tais componentes, muitas vezes não são capturados na digitalização ou são achatadas tornando-os insignificantes. Em Duplo-Fold de Nicholson Baker, sua saga sobre como bibliotecasde  microfilmes de jornais dos anos 1950 e 1960, uma de seus suas principais queixas era que os microfilmes descartaram as páginas de publicidade e desenhos animados: essas coisas foram consideradas sem importância.

Porque livros impressos ainda são importantes —por Timothy Young • Parte 01

19 de fevereiro de 2015

Timothy Young: Recentemente, fiz uma palestra para um grupo de bibliotecárias sobre por que o livro impresso ainda é importante. Eu tinha sido convidado para abordar o tema Livros em um Mundo Digital, mas optou por se concentrar muito mais de perto sobre as características dos objetos impressos que não são efetivamente representados em fac-símile. Isto é: o que não pode ser capturado com um scanner.
Tenho desenvolvido esta lista na minha cabeça por anos, acrescentando-lhe uma razão de cada vez. Na minha profissão, de bibliotecário e curador, esta lista (dos quais o que se segue é apenas uma parte) funciona como uma apologia pro vita mia –uma defesa racional da existência continuada do códice impresso e meu envolvimento com eles.

Dez boas razões para considerar que o livro é muito importante

1. Trata-se de um peça de tecnologia durável.
O códice é uma das tecnologias de mais longa vida. Ele foi continuamente melhorado —mas apenas ligeiramente alterado— ao longo dos séculos.
A impressão de tipos móveis tem sido usada desde a década de 1450; e a forma de códice usada por mais de 2.000 anos.
Estas são ferramentas e formas extremamente duráveis.

2. Precisamos de muito pouca tecnologia para acessar o livro.
(Ignorando, é claro, o aterrorizante episódio de Twilight Zone, “Tempo suficiente para durar”, em que o último homem vivo na Terra quebra os óculos …).
Outras mídias demandam dispositivos para serem decifradas. Informações impressas são codificadas, via linguagem e sistemas gráficos de representação.
Mas, em geral, estes códigos são gerenciados por olhos, mãos e cérebros humanos—ferramentas que carregamos conosco.

3. O livro mantém provas/evidências.

Estas formas de evidências incluem: notas; nomes dos proprietários; anotações.
Isso tudo nos ajuda a entender como os livros funcionavam como ferramentas de aprendizagem e posse, e como eles trafegaram de um proprietário ou leitor para outro.
Como bibliotecário, não defendo que se escreva nos livros, mas fico animado quando encontro um livro didático americano do século XVIII que contém exercícios de caligrafia em suas páginas.

Continua.

Poster, 2015

9 de janeiro de 2015

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Poster, 2015

9 de janeiro de 2015

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1975 Tipografia, introdução de Robert Bringhurst

16 de dezembro de 2014

Tipografia, introdução de Robert Bringhurst
Vista com olhos mais cândidos, ou de uma perspectiva mais cautelosa, a tipografia ainda evoca o pasmo e o terror com que assustou o mundo medieval É uma arte negra que confina com a inseminação artifical e pode propor questões morais igualmente difíceis. […] Solta no mundo, é um vetor incontrolável, como o mosquito portador da malária, capaz de espalhar ideias indiscriminadamente como se fossem vírus ou germes. As possibilidades de seu uso e abuso são potente e inumeráveis.
Está em A forma do livro de Jan Tschichold,
Atelier, São Paulo, 2007.

1970 Wim Crouwel

16 de dezembro de 2014

Assim como Wolfgang Weingart antecipa o Photoshop com seus cartazes do período 1977-1983, Crouwel prévisualiza quase tudo o que aconteceu com a tipografia na era dos computadores, no texto ‘Type design for the computer age’, no Journal of Typographic Research, vol. 4 nº1, 1970:
“L’ordinateur se compose d’un assemblage de cellules […] qui ressemble fort à la composition des organismes vivants et à la structure de notre société tout entière, [et qui] pourrait servir de points de départ au développement de nombreux caractères” nous dit Crouwel, pointant par ailleurs l’anachronisme qui menace la forme de l’écriture. Celle-ci devrait en effet refléter l’état de l’art et de la science de l’époque, et l’élégance classique des empattements des pleins et des déliés d’un ‘R’ du XVIº siècle s’accorde mal à l’environnement contemporain”, complète Catherine de Smet. (Pour une critique du design pratique. Dix-huit essais, Paris, B42, 2013.)
Resumindo em português:
“O computador é composto por um conjunto de células [...], que se parece muito com a composição dos organismos vivos e a estrutura de nossa sociedade, [e] poderão servir como pontos de partida para o desenvolvimento de muitos caracteres” Crouwel diz, apontando também o anacronismo que ameaçada a atual forma da escrita. Isso deve realmente refletir o estado da arte e da ciência de sua época […], completa Catherine de Smet.

02 Livro pensadora. Trabalhando muito além 
das fronteiras convencionais • Revista Abigraf #274

16 de dezembro de 2014

Elaine Ramos é uma das principais referências do atual design editorial brasileiro. Destacou-se por projetos sofisticados e instigantes de obras literárias e pelo trabalho colossal, com Chico Homem de Melo em Linha do tempo do design gráfico no Brasil, da Cosac Naify em 2012.

Quando e como o livro entrou na sua vida profissional? Pela leitura, pela escrita ou pelo design?
Eu diria que entrou mais pelo design mesmo. Logo depois que saí da FAU/USP entrei na Cosac Naify, para trabalhar junto ao Fabio Miguez e adaptar o projeto dele da série Espaços da Arte Brasileira (que até então só tinha artes plásticas) para arquitetura. Já tinha projetado alguns livros, publicações da própria FAU e para o SESC, mas acho que foi mesmo dentro da Cosac Naify que eu me encantei com esse objeto.
Em que ano você terminou a FAU e iniciou na editora?

Terminei a faculdade em 1999, em agosto do ano seguinte entrei na Cosac Naify.
Desde este momento até hoje, no seu ponto de vista, o que mudou mais profundamente o trabalho editorial e o caráter do livro?

Nessa altura a editora tinha apenas cerca de cinquenta títulos, e hoje ela tem mais de mil, portanto vivi todo o processo de profissionalização da Cosac. Acho que ela representa uma renovação no mercado em vários aspectos, sobretudo por publicar artes visuais (arte, fotografia, arquitetura, design), por aproximar o livro de texto do livro de arte, e por pensar o livro de forma integrada –capa e miolo– buscando     diferencias em termos de material, encadernação etc. de forma integrada ao conteúdo. E nesse período o cenário mudou muito, de lá pra cá, temos o grande impacto do crescimento da internet, o eBook, as redes sociais. Houve também a entrada no Brasil dos grupos editoriais internacionais, a fusão de grandes editoras etc. O mercado ficou maior e mais 
competitivo, e mais reiterativo, ou seja, vendas concentradas em menos títulos.
As transformações desse período em que estás envolvida com design editorial, atingiram a sociedade de forma avassaladora e o livro e os hábitos de leitura também precisaram se adaptar às mudanças. Alguns de seus projetos editoriais sinalizam e indicam alguns caminhos para o futuro do livro com sagacida e inovação.  Quais as preocupações que o designer deveria ter ao projetar nesta cenário?

Já faz algum tempo que o livro impresso deixou de ser a única maneira de se endereçar um conteúdo extenso de texto e/ou imagens. Acho que então, para o designer –mobilizar toda a enorme cadeia produtiva necessária para sua existência– é fundamental que tire partido do fato de ser um objeto, em todas as suas potencialidades. Não faz mais sentido que ele seja apenas um veículo neutro. O livro, como objeto, tem que agregar sentidos ao conteúdo.Screen shot 2014-12-16 at 4.43.55 PM
Dentre seus projetos, —pessoais ou profissionais—, qual ou quais poderias classificar como mais experimental.
Acho que os mais experimentais são o Bartleby, o escrivão, Zazie no metro e Avenida Niévski. Todos fazem parte do que chamamos hoje de Coleção Particular, edições com a proposta de construir um diálogo estreito entre forma e conteúdo. Fiz também um pequeno livro de artista, em parceria com a Maria Carolina Sampaio, que se chama Urgente. Trata-se de um livretinho feito com o papel fotossensível usado nas cópias heliográficas. O livro foi sensibilizado e lacrado sem passar pelos processo de revelação e fixação. O resultado é que as composições de silhuetas de objetos obsoletos ligados às artes gráficas que sensibilizaram o papel ficavam cada vez mais escuras sob os olhos do leitor, que também podia interagir com o livro, marcando com novos objetos. Um comentário sobre a passagem do tempo e a obsolescência.
Qual, foi o mais receptivo no mercado?
Quanto ao mais receptivo, o próprio Bartleby é um sucesso de vendas para os padrões da Cosac Naify, vende uma edição por ano até hoje (foi lançado em 2005) e muita gente me procura porque está fazendo TCC ou mestrado sobre ele, ou sobre a Coleção Particular em geral. O Antologia da Literatura Fantástica é o nosso livro mais vendido no mercado em 2014.
As novas gerações de designers podem ter um futuro no mundo do design editorial? Como eles devem se preparar enfrentar esse período de “fim do livro”?
Acredito que a tarefa de dar forma adequada a um conteúdo sempre será valiosa, independentemente da mídia. As oportunidades de trabalho relevantes não estão (e nunca estiveram) dadas, cabe ao designer inventá-las, e para isso o envolvimento com o conteúdo é fundamental.

Profissional da área: grande logotipo(gráfico)

16 de dezembro de 2014

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